O Homem Irracional

Não raro, o talento de um artista se revela muito mais na forma como ele formula seus questionamentos do que nas questões em si. Em “O Homem Irracional” Woody Allen retoma seus velhos questionamentos, o arrebatamento de um homem mais velho pelo frescor de uma jovem, a qual, como de costume, é sua pupila, o esfacelamento moral diante do desejo, a forte carga intelectual e por fim o inusitado, aquilo que rompe a mediocridade e nos lança à dimensão do impossível. Apesar de retomar velhos temas, Allen nos traz um novo viés, uma nova forma de enxergar o mesmo. Mais uma vez ele vai até Dostoievski buscar o substrato de sua estória. Não obstante, nos traz um quadro muito diferente de “Match Point”, que é também uma referência direta a “Crime e Castigo”. Em o “Homem Irracional” podemos perceber, além de uma referência muito mais contundente, um senso moral mais agudo, o motivo de se praticar um crime quase nos convence, ou pelo menos quer justificar a sua necessidade. Em “Match Point” o crime é motivado pelo egoísmo, enquanto que em o “Homem Irracional” o crime é motivado por um certo altruísmo, ainda que torto. Portanto, o diretor nos mostra o mesmo, entretanto de forma completamente diferente.

Além disso, e o que considero mais instigante no filme, é como uma ideia, ainda que a mais absurda, pode ser para nós a tábua de salvação, aquilo que nos traz de volta à vida, ou seja, que dá sentido às nossas vidas. No filme, o professor Abe Lucas (Joaquin Phoenix) é um decadente escritor que diante do vazio da vida e, portanto, de um quadro depressivo que se avizinha, vê-se obrigado a aceitar a cadeira de filosofia em uma Universidade numa pequena cidade. Ele chega como uma estrela, embora se sinta um triste cascalho. Com a vida desprovida de sentido, nada o impede de se envolver com outra professora, casada, e com uma aluna, fato do qual, aliás, Woody Allen faz pouco caso, passando praticamente despercebido. O professor Abe está a beira do suicídio quando a possibilidade de fazer justiça, de restabelecer o equilíbrio perdido pela injustiças que grassam em nossos dias o fazem retomar o gosto pelo viver. Os planos de um crime já são suficientes para fazer com que o professor ressurja das cinzas. Tanto que a partir daí o filme deixa as salas escuras da universidade para ganhar os parques, deixando-se invadir por um radiante sol de final da tarde. Mas não bastam os planos, o professor quer consumar seu desejo, ainda que perante a maioria das pessoas aquilo pareça imoral ou criminoso. Mas Abe Lucas não guarda escrúpulos, não possui as rédeas, sejam religiosas ou morais, e a única coisa que lhe importar é restabelecer a justiça segundo os seus próprios critérios. E a partir do crime o filme se distancia de Dostoievsky, ganhando contornos originais, porquanto o professor não demonstra qualquer dúvida moral ou arrependimento. Acredita no fundo de sua alma que fez a coisa certa e segue feliz com a sensação de missão cumprida. Não há drama. Mas Woody Allen não abre mão do julgamento, da capacidade de retomada de consciência, o que fica por conta Jill (Emma Stone), a aluna que não compreende a falta de limites e cuja vida não pode admitir a possibilidade de rompimento de tamanhas barreiras. Consciência esta que não vemos em “Match Point”, onde o protagonista segue livre de qualquer julgamento interno ou externo. Em “O Homem Irracional” Abe não pode fugir do confronto, o que nos garante um final mais reconfortante que em “Match Point” para a nossa necessidade de justiça. Bom filme!

 

1 Comment

  1. Parabéns primo!!! Muito bacana sua ideia. Iniciativa show!!!! 👏👏👏

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