Bienal de São Paulo

“Pai, a arte evoluiu?”. Foi esta a pergunta que meu filho me fez enquanto caminhávamos entre as obras de 81 artistas e coletivos que compõem a 32ª Bienal de São Paulo. Sob o título “Incerteza Viva” os artistas nos convidam a lançar o olhar sobre a realidade que nos cerca e a repensar nossas atitudes como integrantes de um organismo vivo. Diante das obras, olhamos para o futuro, encaramos o desafio de promover mudanças profundas em nosso modo de nos relacionarmos com os outros seres que nos acompanham nesta jornada.

As certezas se esfacelaram. A ciência não deixa dúvidas da finitude dos recursos naturais e de quão destrutiva é a presença humana sobre a terra. A raça humana é sem sombra de dúvida a pior praga que já existiu. Por onde passa deixa um rastro de destruição. Suas intervenções levam anos para serem assimiladas. A ânsia do consumo, sintoma de uma consciência rasteira, está nos levando para a beira do abismo, de onde nos lançaremos tal como uma manada de bisões para sermos esfolados vivos. A natureza grita, e o homem, amedrontado, dela se isola. Perde a capacidade de conversar com as ondas dos mares, de ouvir o alerta dos pássaros ou de simplesmente ganhar o abraço de uma árvore. Imagina-se imune e autossuficiente a ponto de desprezar a única maneira de retardar a sua extinção: a convivência compassiva com todos os seres. O respeito às diversidades está no cerne de nossa sobrevivência.

Nesta edição da Bienal a utilização de materiais orgânicos na confecção das obras, a incorporação de novas tecnologias e a discussão com o aquilo que de mim difere, ecoa em cada obra. A floresta de esculturas de Krajcberg, a partir de restos de árvores, logo no primeiro piso, cria um diálogo de vida e morte com a natureza contida do parque que a cerca. A obra de Laís Myrrha, intitulada “Dois Pesos, Duas Medidas” causa impacto pela imponência de sua estrutura, dois totens modernos, orgânico e inorgânico, concreto e madeira, homem e natureza, uma proposta de convívio. Somos convidados ainda a ouvir os conselhos da frondosa árvore que além da vidraça nos olha. Para isso contamos com o “Espelho de Som”, obra do argentino Eduardo Navarro. E como somos feitos de cotidiano, invadimos o dia-a-dia da artista Wilma Martins, para sermos surpreendidos por um olhar poético daquilo que nos é mais comum, a própria existência.

Sim, meu filho. A arte evoluiu. E o fez porque não cabe a ela aceitar esse estado de coisas, não pode a arte resignar-se à degradação dos reinos naturais, concordar com o arremedo de ser no qual tem se convertido o homem. A arte nos toma pelas mãos e nos leva pelos corredores da vida para que possamos nos deslumbrar com o que somos capazes de criar quando mergulhados no respeito e no amor. Sim, meu filho, a arte evolui porque nos faz evoluir, ela nos afina o espírito, ela nos salva da ignorância, este câncer que só morre por inanição. Através da arte até o mais ignóbil é capaz das mais belas realizações, das quais até mesmo os anjos caem de inveja. A arte é o toque divino que nos provoca, que nos agita, angustia e nos faz querer ser mais, ir além. Pois fique sabendo, meu filho, a nossa história não chegou ao fim.

1 Comment

  1. A arte é o toque divino que nos provoca….

Deixe uma resposta