Minha Luta

Vivemos uma época de intensa exposição. Ao nascer, a primeira foto no Instagram ensina o quanto vale uma curtida. Durante uma existência somos constantemente instados a mostrar a que viemos, prestando diuturnas contas de quem somos, ou antes, de quem devemos ser. Mais vale a lenda que o fato, pois se não somos o que se espera de nós basta valer-nos do photoshop da alma, sorrisos, tardes de sol e boas frases motivacionais. Afinal, somos todos felizes, certo? Há certamente algo de errado comigo por não ser tão feliz assim. O que dizer então da falta de curiosidade a meu respeito? Diante da avidez das redes sociais sobre aos detalhes de nossas vidas, sou um desvalido se ninguém me segue. Todos, afinal, querem saber como vivem o fulaninho ou a fulaninha, o que comem no café da manhã, com quem transam, se estão casados ou separados. Somos seres que imitam, seres cuja sobrevivência depende de seguir os passos de outros seres, que também já imitaram outros, formando um mosaico de influências. Precisamos de modelo, paradigma, padrão. Se dependêssemos exclusivamente de nossa criatividade para viver, certamente pereceríamos. E na falta de bons modelos, vale qualquer coisa. Friso: qualquer coisa. Estão aí as novelas da Globo, o Facebook, os seriados, as fofocas e, porque não, os livros. Sim, os livros também nos trazem modelos de viver e como qualquer outra fonte, uns bons, outros sofríveis.

A série “Minha Luta”, de Karl Ove Knausgard fica na turma dos bons exemplos. Não tanto pela vida que relata, porquanto modesta, sem grandes lances ou acontecimentos fantásticos, mas antes pela maneira de se dizer o simples. Afinal, Karl Ove é um autor mergulhado na contemporaneidade, onde o que vale é a forma de se contar uma estória e não tanto a estória em si. Karl Ove não inova no que faz, embora parte da crítica mais entusiasta venha afirmando que ele criou um novo estilo literário, o romance autobiográfico. Eu jamais conseguirei entender esta terminologia, pois para mim toda obra de valor literário é sempre biográfica. A profundidade de um texto bem escrito está exatamente na sua honestidade, na vida que o autor ali coloca, e que das profundezas de sua alma vem à luz com novas roupas, as vestes da criação artística. Tudo que é sincero na literatura é pessoal. O papo é reto e direto. Tal como foram os beatniks em sua louca trajetória física e espiritual pelas estradas dos Estados Unidos, um mergulho para entender o mundo que se descortinava no pós guerra e no qual não se ingressava inocentemente. Era preciso tomar uma dose antes. Da mesma forma não se passa incólume por James Joyce e o relato de seus conflitos em “Retrato de um Artista Quando Jovem”, ou pela festa de Ernest Hemingway em “Paris é uma Festa”. Karl Ove foi beber nesta fonte e bebeu bem. Com coragem, empunhou a bandeira da literatura visceral e tomou a própria vida nas mãos, na verdade a última coisa que lhe restara, para nos presentear com algo que de alguma forma nos coloca diante de nossa própria biografia, fazendo-nos encarar em perspectiva, não poucas vezes de forma dolorosa, esta insensata aventura. Knausgard torna frágeis os limites entre a ficção e a realidade, já que ao preencher as lacunas de sua memória o faz segundo o fio condutor de fatos reais, sem alterar nomes, cidades ou circunstâncias. Cabra macho, pois revela suas fraquezas, suas características pouco nobres, as quais os autores tentam soterrar sob a técnica. A coragem, portanto, traço característico de toda obra artística que se pretenda minimamente relevante, ganha em Karl Ove importância central. Assim como a indiscrição em revelar detalhes da vida de parentes e amigos, a tal ponto do autor afirmar na Flip deste ano que não é uma boa ser amigo de escritores. Faz sentido?

O primeiro livro da série, intitulado “A morte do Pai”, trata com honestidade a relação difícil entre Karl Ove e seu pai, um sujeito pouco dado a afetos, assim como o próprio autor, diga-se de passagem. Sem meias palavras, somos levados para o meio da sala de estar desta relação e ficamos constrangidos com aquilo que somos obrigados a vivenciar com o autor: a profunda solidão, a incomunicabilidade e a necessidade de se adaptar para sobreviver. A ruptura com o pai é inevitável, assim como a ânsia da reconciliação. Knausgard faz sua jornada do herói ao buscar esse reencontro, ponto em que o livro ganha um certo lirismo, ainda que a ausência persista, sobretudo em face do que nos é mais inevitável na vida.

Karl Ove Knausgard contou-nos sua vida comum em seis volumes, quatro traduzidos no Brasil e lançados pela Companhia das Letras, nos quais relata sua luta para tornar-se escritor e, sobretudo, um homem. Uma família disfuncional, como todas as nossas hoje em dia, as angústias da insegurança no lidar artístico, do qual somente está livre aquele que desiste e os desafios da paternidade e da vida familiar fazem dessa obra algo que merece nossa atenção, pelo que nos traz de cotidiano, mesquinho ou sublime em nossas vidas nada glamorosas, mas nas quais somos os grandes e únicos protagonistas. Boa leitura!

1 Comment

  1. Fiquei curiosa🤔

Deixe uma resposta