Desonra

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David Lurie é o personagem principal de Desonra, livro escrito pelo sul-africano J.M. Coetzee, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 2003, e editado no Brasil pela Companhia das Letras. David é um professor de literatura na África do Sul pós-apartheid, onde as tensões raciais estão latentes e, de forma sutil, permeiam as relações entre os demais personagens do livro.

Coetzee tangencia o preconceito, revelando relações de dominação, de subordinação, expondo de forma contundente a posição social que cada personagem assume nesta nova sociedade. O autor não é direto ao falar da cor da pele dos personagens, permite que a tez se revele a partir da relação que se estabelece entre eles.

O sexo é o veículo utilizado pelo autor para expor de forma crua tal dominação. O que, aliás, faz do livro algo familiar para nós brasileiros, produtos de uma sociedade escravocrata, que não se envergonha, ainda, de valer-se da dominação sexual nas relações inter-raciais.

No livro, as relações de poder são cambiantes. E o poder está no sexo, no ato sexual imposto pelo homem, que o utiliza como ser dominante, independentemente da cor da pele. Através do sexo, o autor revela quem manda e forja um espelho perante o qual o personagem principal se depara com seus próprios valores ou com a falta deles.

Por fim, temos a imolação, o sacrifício, como outro mote importante do livro. Já de início, o professor David Lurie se oferece em sacrifício ao ser submetido a julgamento pela Universidade em que leciona. Recusa-se a se defender da acusação de conduta imprópria. A imolação se repete ao longo do livro e ganha contornos trágicos quando a filha de David, Lucy, vê na violência a ela imposta uma forma de sacrifício, um preço a ser pago pelo ideal de viver livre naquele novo país.

Assim também na relação com os animais, presenças recorrentes em todo livro. São sacrificados, pois doentes ou feridos já não prestam para mais nada. A nova África do Sul é uma sociedade dos fortes e saudáveis, como Petrus, o vizinho de Lucy, que ao longo do livro se afirma como o novo cidadão sul africano.

Coetzee usa uma linguagem seca e direta para nos mostrar como o poder passa de uma mão à outra em uma sociedade perplexa, que ainda não sabe lidar com a liberdade conquistada e, portanto, com o respeito ao próximo. Tal aprendizado faz vítimas e algozes, os quais terão que encarar suas culpas e vergonhas, e seguir adiante. Realmente, um livro extremamente familiar para nossa imatura democracia.

1 Comment

  1. Roberto Grossmann says: Responder

    Li há algum tempo este livro e foi uma das minhas melhores experiências literárias recentes. Uma estória forte de escrita magnífica.

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